Comando do Corpo de Bombeiros do Amazonas recusou ajuda federal para combater incêndios, revela documento do Ibama


Da Redação - Memorial News
Via Redação POLÍTICA DIVERSA
Foto: Reprodução
MANAUS/AM — O comando do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas recusou, em 25 de setembro, o envio de equipes federais para combater incêndios florestais em nove municípios do estado. A decisão consta no Ofício nº 2346/2026/GABIN, assinado pelo presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Jair Schmitt, em 6 de outubro, e contrasta com declarações do comandante-geral da corporação, coronel Orleilso Ximenes Muniz, que afirmou à Rede Amazônica, nesta sexta-feira (9), ter recebido uma resposta negativa do governo federal a um pedido de ajuda.
O reforço havia sido solicitado pela própria Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema-AM), em 23 de setembro, quando os incêndios já atingiam níveis críticos no interior. O pedido incluía equipes do Projeto de Resposta em Ações Integradas para Atuação em Situações de Desastres (Respad), ligado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, que mobiliza bombeiros militares de diferentes estados para atuar em situações de emergência.
Segundo o documento, o governo federal deu andamento à solicitação, mas, dois dias depois, o Respad comunicou que o comandante dos Bombeiros do Amazonas havia recusado o acionamento.
“Contudo, em 25 de setembro de 2026, o Respad informou ao Ciman Federal que o Comandante do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Amazonas (CBM-AM) havia declinado do acionamento solicitado pela Sema-AM”, afirma o ofício.


Na mesma data, durante uma reunião no Ibama, em Brasília, com a participação de integrantes da direção do órgão federal e da Secretaria de Meio Ambiente do Amazonas, a posição do Corpo de Bombeiros foi apresentada novamente. Por telefone, a corporação informou que precisava apenas de apoio aéreo.
A decisão ocorreu enquanto o governo federal organizava o possível deslocamento de equipes para os municípios de Novo Aripuanã, Careiro da Várzea, Autazes, Manaquiri, Urucurituba, Apuí, Manicoré, Manacapuru e Caapiranga. Segundo o Ibama, os nove municípios estavam entre as áreas mais críticas do país naquele momento.
Duas semanas depois, na manhã desta sexta-feira, Muniz afirmou, durante entrevista ao Jornal do Amazonas 1ª Edição, da Rede Amazônica, que a União não havia atendido a um pedido de reforço.
“Já tivemos um retorno negativo de que não seria possível apoiar. Reforço e apelo mais uma vez: o estado do Amazonas precisa somar esforços com o governo federal”, declarou o comandante.
Muniz justificou a necessidade de aeronaves pelas dificuldades de acesso às áreas atingidas pelas queimadas, onde, segundo ele, seria necessário fazer o combate aéreo ou deslocar os profissionais a pé.
A declaração não mencionou a recusa anterior do acionamento das equipes terrestres. O documento do Ibama, porém, não informa quantos profissionais seriam enviados nem se havia uma data definida para sua chegada ao Amazonas.
Pedido de reforço avançou antes da recusa
A sequência registrada pelo Ibama começou em 23 de setembro, quando o Centro Integrado Multiagências de Coordenação Operacional Federal (Ciman Federal) recebeu o pedido da Sema-AM. O órgão acompanha operações de combate aos incêndios e reúne representantes de diferentes instituições federais.
No dia seguinte, 24 de setembro, o Ciman solicitou à secretaria informações complementares, entre elas a quantidade de combatentes necessária, os locais de apresentação das equipes e o período previsto de permanência nos municípios.
A Sema respondeu no mesmo dia. Com as informações, o pedido foi encaminhado ao Respad, vinculado à Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), para avaliação e organização do possível envio das equipes.
O projeto funciona como um mecanismo nacional de mobilização de bombeiros militares especializados em situações de desastre, reunindo profissionais de diferentes estados para reforçar operações emergenciais.
O Respad informou que entraria em contato com os responsáveis indicados pelo Amazonas para acertar as condições de mobilização. No dia 25, entretanto, comunicou ao Ciman Federal que o comandante estadual havia recusado o acionamento.
Na reunião realizada ainda naquele dia, o secretário de Meio Ambiente do Amazonas informou que reavaliaria a necessidade de combatentes nos municípios inicialmente indicados e, caso fosse necessário, apresentaria uma nova solicitação.
Comandante apresentou negativa para outro pedido
Após a repercussão de suas declarações, Muniz divulgou nas redes sociais, ainda nesta sexta-feira, documentos para demonstrar que havia solicitado apoio ao Ministério da Justiça e Segurança Pública e recebido uma resposta negativa.
O pedido apresentado pelo comandante havia sido encaminhado em 18 de setembro e incluía quatro aeronaves para combate a incêndios, uma aeronave do tipo Bandeirante para transporte de pessoal e materiais, além de viaturas do tipo picape e caminhão.
Na justificativa, o Corpo de Bombeiros apontou as grandes distâncias entre os municípios amazonenses, a falta de estradas e as dificuldades de deslocamento pelos rios durante a estiagem.
A resposta da Secretaria Nacional de Segurança Pública informou que o pedido não poderia ser atendido naquele momento, citando a indisponibilidade de equipamentos aptos para doação. O órgão também indicou alternativas de financiamento por meio de editais, do Fundo Nacional de Segurança Pública e de emendas parlamentares. A documentação foi divulgada por Muniz e noticiada pela imprensa local.
A negativa, entretanto, se refere ao fornecimento de equipamentos, enquanto o documento do Ibama trata de outro procedimento: o acionamento de equipes federais para atuar diretamente no combate aos incêndios.
No ofício, o Ibama também informa que havia uma solicitação de apoio aéreo registrada desde 18 de setembro, posteriormente encaminhada à Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil para avaliação de atendimento por meio do Projeto Pegasus, do Ministério da Justiça. O procedimento estava em andamento para Careiro da Várzea.
O órgão federal explicou que o envio de aeronaves depende da disponibilidade de equipamentos e da avaliação das ocorrências mais graves, considerando que diferentes regiões do país enfrentam incêndios ao mesmo tempo.
Na reunião de 25 de setembro, o governo federal também apresentou ao Amazonas a possibilidade de contratar horas de voo por meio de uma ata de registro de preços do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos. O mecanismo inclui aviões capazes de lançar água sobre áreas atingidas pelo fogo.
A alternativa permitiria ao estado ampliar sua estrutura aérea, mas exigiria contratação e organização das operações.
O Ibama afirmou, no documento, que havia adotado os procedimentos previstos para os pedidos de combatentes e aeronaves e que continuava disponível para analisar novas solicitações.
De acordo com a apuração, a existência de diferentes pedidos e procedimentos indica que a negativa à doação de equipamentos não representou, por si só, uma recusa federal a todas as formas de apoio ao Amazonas.
Governo federal afirma que reforço foi dispensado antes do deslocamento
Em nota publicada na noite desta sexta-feira (9), o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima apresentou uma nova informação sobre o caso. Segundo a pasta, em 30 de setembro, cinco dias após a primeira recusa registrada pelo Ibama, o Governo do Amazonas voltou a informar que não precisava do reforço do Respad.
De acordo com o ministério, o Estado alegou que as chuvas haviam contribuído para controlar os focos de incêndio e dispensou a atuação da equipe federal antes que os profissionais fossem deslocados para o campo.
A pasta também informou que disponibilizaria mais seis aeronaves (quatro aviões Air Tractor e dois helicópteros) e 290 brigadistas para reforçar o combate aos incêndios. Segundo o balanço divulgado, o Ibama já havia extinguido 229 incêndios no Amazonas desde o início da temporada e continuava atuando em outros 20.
A nota federal acrescentou que o Amazonas ainda não havia formalizado pedido de recursos pelo Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil para ampliar sua capacidade de resposta. O ministério também citou R$ 45 milhões do projeto ProAmazon, financiado pelo Fundo Amazônia, destinados ao fortalecimento da estrutura do Corpo de Bombeiros estadual e às ações de prevenção e combate ao fogo, com pagamentos realizados em janeiro de 2025 e março de 2026.
Ministério Público de Contas havia alertado para falta de planejamento
A recusa do reforço federal ocorreu depois de o Ministério Público de Contas do Amazonas (MPC-AM) alertar o governo estadual sobre a necessidade de ampliar as equipes de combate e garantir recursos para enfrentar a estiagem. Em agosto, por meio da Recomendação nº 94/2026, o órgão cobrou a reserva antecipada de dinheiro para contratar pessoal, adquirir equipamentos e reforçar as operações, inclusive com recursos do Fundo Estadual de Proteção e Defesa Civil (FEPDEC).
As cobranças aumentaram em 23 de setembro, quando o procurador de contas Ruy Marcelo Alencar de Mendonça apresentou a Representação nº 43/2026 ao Tribunal de Contas do Amazonas. O MPC apontou falhas de planejamento e respostas fragmentadas dos órgãos estaduais, sem a apresentação de um plano integrado que demonstrasse quantos profissionais, equipamentos e recursos estavam disponíveis para enfrentar os incêndios. O órgão pediu medidas urgentes para que o governo apresentasse um diagnóstico de sua capacidade operacional, os custos para ampliá-la e as fontes de financiamento.
Para o MPC, a existência de estruturas administrativas e de recursos destinados à Defesa Civil deveria permitir ao estado agir antes do agravamento da crise. Um levantamento publicado pelo portal Real Time AM, em 2 de setembro, mostrou que o FEPDEC havia empenhado R$ 39,8 milhões em 2024, mais de onze vezes os R$ 3,52 milhões registrados pela unidade orçamentária da própria Defesa Civil. Os documentos, porém, não demonstram quanto havia disponível em caixa durante os incêndios de setembro de 2026 nem permitem concluir que recursos tenham sido desviados ou deixado de ser aplicados deliberadamente.
















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